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O fracasso brasileiro de Henry Ford

Toda empresa séria(pequena ou grande) precisa do especialista certo na hora certa, visando sempre a competência adequada para servir ao mercado da melhor forma possível e, desta forma, obter-se o resultado esperado da sua atividade empresarial. Todo empreendedor deveria saber disso. Mas, por incrível que seja, os erros nas tomadas de decisão ainda são uma constante nas empresas do século XXI. Isto pode resultar em desperdício de recursos(gente, tempo, dinheiro) e na ineficiência das operações.

E não é só gente comum que comete este tipo de erro. Neste post veremos que os gênios e os grandes também podem errar. E, quando erram, erram feio.

O case da cidade fantasma de Ford

Pois bem, lá no final do anos 20, Henry Ford, o dono da maior e mais completa empresa que o mundo já havia visto, detinha todo o processo produtivo da sua produção de carros. Isto abrangia: a extração do minério, a transformação do aço, o desenho industrial, as patentes, a modelagem das peças, a parte elétrica, a montagem, a pintura, a venda etc. Tudo. Ou melhor: quase tudo. Só havia uma coisa que a Ford Motor Company não produzia: a borracha para seus pneus. Esta era a única parte terceirizada na empresa. Naquela época, a borracha somente era produzida a partir da extração do látex da seringueira, pois ainda não existiam os métodos sintéticos de produção. Este era um monopólio pertencente aos ingleses.

Essa dependência da borracha inglesa irritava Ford. Os preços altíssimos do monopólio elevavam os seus custos de produção, ao mesmo tempo que reduziam a sua margem de lucro. Repassar todo este custo ao mercado, em pleno período de crise, para manter uma boa margem, era impensável. A ideia original era produzir em massa e vender grandes quantidades, por um preço acessível aos consumidores.

Mas, enganou-se quem pensava que o determinado Ford ficaria inerte frente ao desafio: o plano estava traçado e o “problema” seria resolvido ao melhor estilo fordista. O velho lobo de Detroit decidiu produzir a sua própria borracha e livrar-se das amarras do monopólio inglês. E o solo brasileiro, mais precisamente o solo paraense, no coração da floresta amazônica, estava escalado para o jogo. Aqui inicia-se o fracasso brasileiro de Ford, que lhe daria mais prejuízos do que lucros e muitas dores de cabeça.

O território escolhido para a plantação do seringal e para a instalação da fábrica de borracha de Ford, está localizado às margens do Rio Tapajós, a uns 800 quilômetros de Belém. O único meio de acesso era o fluvial. Uns 2 dias de viagem.

E assim, em setembro de 1928, o navio Lake Ormorc ancorou em Santarém-PA, a uns 200 quilômetros de onde seria construída a Fordlândia, e lá ficou atracado até dezembro, porque ninguém havia considerado que o rio Tapajós, nesta época do ano, é impróprio para a navegação de barcos de grande tonelagem. Isto até parecia um presságio do que ocorreria ao longo do projeto.

Após zarpar rumo à futura cidade, o cargueiro chegou ao seu destino, descarregou tudo e o plano começou a tomar forma: desmatou-se a terra, construiu-se a fábrica, um vilarejo ao melhor estilo estadunidense e casas populares para os trabalhadores e deu-se início à plantação do seringal. Também havia um hospital(um dos melhores do Brasil na época), escolas, praças, tratamento de água, geração de eletricidade, comércio etc. Enfim, Henry Ford nunca pôs os pés em território brasileiro, mas construiu uma cidade completa, e esta foi batizada com seu nome até hoje.

Fordlândia vista do alto

Fordlândia vista do alto

Vila dos trabalhadores

Vila dos trabalhadores

Mas havia um problema gritante no projeto Fordlândia: ninguém na equipe de Ford era especialista em agricultura equatorial. Desta forma, seus gerentes não perceberam que a terra escolhida era infértil e pedregosa. Também não observaram que a monocultura das seringueiras, plantadas muito próximas entre si, era presa fácil para alguns tipos de pragas agrícolas, principalmente os micro-organismos do gênero Microcyclus. Essa praga dizimou as plantações.

Seringal

Seringal

Não ter inserido no projeto especialistas em botânica ou na agricultura local, para auxiliar na produção própria de borracha, foi o grande erro de Ford e de seus gerentes.

Depois disso, houve outra tentativa de realocar a comunidade de trabalhadores e a plantação mais ao norte, onde as condições eram mais propícias para os seringais: nascia Belterra, a segunda cidade construída por Ford para o seu propósito. Consequentemente abandonou-se Fordlândia e toda sua infra-estrutura. Mas era tarde demais para reagir. Este segundo investimento também foi em vão. E desta vez não foi culpa das pragas, mas das novas tecnologias que, em meados da década de 40, surgiram e permitiram desenvolver a borracha de forma sintética, através dos derivados do petróleo.

Henry Ford faleceu sem conhecer o desfecho de sua empreitada. E o faria sem nunca perceber lucro ou vantagem da sua tentativa de produzir borracha em terras dos tupiniquins. Seu neto assumiu o comando da empresa e decidiu abandonar o projeto brasileiro da empresa.

Fábricas abandonadas em Fordlândia

Fábricas abandonadas em Fordlândia

No final das contas, foram mais de vinte milhões de dólares em prejuízos. Fordlândia atualmente é uma cidade fantasma, com pouco mais de mil habitantes. Belterra teve melhor sorte e subsiste com pouco mais de 16 mil habitantes.

About Antonio Martins Jr.
Fundador e gestor do blog Enfoquenet. Bacharel em Administração de Empresas. MBA em Gestão Estratégica. Autodidata na maior parte do tempo. Webdesigner, com ênfase no WordPress desde o início do século. Aficionado em fotografia e jardinismo.

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